Doutor Estranho e as paredes que fabricamos

 Benedict Cumberbatch, ator que representa Doutor Estranho

Existe um local onde nossos medos são diminuídos, nossas energias restauradas e a esperança renovada. Esse local, ‘construído’ à base de muito esforço, tem papel fundamental na nossa existência – e com ele desenvolvemos uma grande relação de dependência. É um porto seguro, uma blindagem, uma sombra sob o sol escaldante das eventualidades.

Para os cristãos, pode ser a igreja onde congregam. Um prédio, de qualquer tamanho, com o qual conseguem compartilhar o mesmo sentimento de Davi: “um dia nos Teus átrios vale mais do que mil”.Dalí as pessoas conseguem sair diferentes da forma como entraram. São renovadas espiritualmente e sentem-se acolhidas.Mas existem outros ‘locais’ que nos trazem uma sensação semelhante.

Para alguns, pode ser a própria casa – e a segurança que tem dentro dessas paredes. É onde habitam os sonhos e as vitórias, algumas das quais emolduradas nos porta-retratos e nas paredes. É alí que fortalecem a família, construída a partir de um esforço de educação, manutenção de valores e abdicação.

Também é possível obter essa mesma sensação…na cozinha! Sobre a pia, como num altar, derramando lágrimas e risos, entre uma refeição e outra. Como se talheres, panelas, torneiras e mármore pudessem compreender nossas dores e retribuir, agraciando nosso paladar, numa deliciosa refeição. Uma catarse gastronômica.


A noção de proteção pode vir também da garagem, em um carro – velho ou novo. É com ele que nos deslocamos; por meio dele conquistamos o nosso salário e executamos a rotina da existência. Uma segurança que vai além da proteção contra tiros, e que se amapara na garantia de que esse veículo irá nos transportar, sem sombra de dúvidas, do ponto A até o ponto B, sem que nada ocorra no meio do caminho.

Cada um desses lugares exerce um papel de ‘santuário’ na nossa existência. E a ‘santidade’ que existe neles não está relacionada ao Ser Divino, mas à paz que encontramos quando nos sentimos envolvidos por eles, à garantia de sucesso nas nossas realizações.

DOUTORESTRANHO4Assim também é com o nosso trabalho. Nesse ‘santuário’ atuamos com a certeza de que nosso salário será pago, ao cumprirmos o papel que nos foi designado, por pior que sejam as relações inter-pessoais ou as condições para exercer nossa função. Um acordo, um contrato que nos traz essa segurança.

Também funciona dessa forma o acordo para um casamento. Cada parte entra na relação disposta a cumprir o seu papel, ciente do que terá que contribuir com seus esforços – na promessa de alcançar a felicidade. Desta forma, por pior que sejam os dias e as tempestades que atinjam o relacionamento, haverá a segurança de que os dois irão fazer o melhor para contornar os problemas e continuar juntos.

A questão é que esse ‘santuário’, seja qual for, que nos traz a sensação de proteção, de resistência absoluta ou de elevação acima dos problemas, não existe. Ou só existe no nosso coração. E um dia, a tal ‘paz’ pode vir abaixo.

Porque, afinal, não existe garantia alguma de que a nossa casa não será invadida por bandidos mal intencionados, nem que nossos pais e filhos estarão absolutamente protegidos debaixo dessas paredes. Não há garantia de que nosso cuidado com os corpos, escolhendo as refeições mais balanceadas e os exercícios mais frequentes, ampliará o tempo e a qualidade da nossa vida. Um dia, aquela doença chega, do nada, e o ‘santuário’ da tranquilidade chega ao fim.

Já os nossos carros, novos, velhos ou recém-revisados, nos quais tanto confiamos, podem parar de funcionar na próxima esquina ou na viagem seguinte. E toda a paz que havia nessas carroças modernas, será abalada.

Na cozinha, vai chegar um dia em que fazer o almoço, bater um bolo ou criar uma refeição diferente será insuficiente para vencer a frustração. As lágrimas derramadas na pia serão as mesmas de uma cebola descascada. E por mais doce que seja a sobremesa, ela não vai tirar o gosto amargo da nossa boca. Não, o ‘santuário’ da cozinha não vai existir pra sempre.

E quem garante que a crise não irá chegar até a empresa onde trabalhamos, fazendo com que os nossos direitos deixem de ser respeitados e os salários atrasados? Perdemos a confiança, o orgulho de carregar aquele logotipo no peito ou o crachá pendurado no pescoço. E a carreira, tão sólida, construída com tamanho suor, será mais uma lembrança na folha do currículo, em busca de uma nova oportunidade.

O ‘santuário’ do casamento também pode ser ameaçado, por maior que sejam as juras e promessas. É difícil dizer quando essas paredes seguras começarão a ruir, mas não é difícil de descobrir quando desapareceram. E aquela união, que tanto encantou parentes, amigos e irmãos…um dia também acaba.

Você já passou por uma dessas situações? Já se levantou, pela manhã, com uma sensação de acolhimento, paz e esperança, e foi dormir inseguro, temeroso, angustiado? Como se tivessem roubado seu chão e não houvesse pra onde correr? Como se não pudesse deixar de pensar: “de que forma vou viver, a partir de agora”? Nem sempre existe explicação para aquele momento que fez tudo virar de cabeça pra baixo. Mas ficamos com o desejo de que nada tivesse acontecido – e a vida seguisse seu ritmo normal, seguro e tranquilo de antes.

Foi o que se passou pela mente do médico americano Stephen Vincent Strange, depois de sofrer um grave acidente de carro que danificou os nervos de sua mão. Neurocirurgião, Stephen era um dos melhores da sua área, no mundo – e nunca mais pode operar alguém. O arrogante médico partiu uma viagem pelo mundo, tentando encontrar uma cura para sua situação – e sua revolta.

Lamento, mas ele não encontrou a Salvação em Jesus. Porque Stephen é um personagem de quadrinhos da Marvel que, em função dessa sua jornada espiritual, se tornou o Doutor Estranho, um especialista nas artes místicas. Para alguns fãs, Strange está no caminho da peregrinação cristã, sim, apesar do envolvimento com feitiços e artefatos.

O ponto é que Stephen foi retirado bruscamente de tudo aquilo que lhe trazia conforto e segurança. Perdeu seu dom, sua carreira. Foi ‘arremessado’ para o outro lado do mundo, em busca de tudo aquilo que não acreditava, que não lhe era palpável, crível.

Depois de assumir uma missão, de defesa desse mundo, o Doutor Estranho desenvolve um santuário – sem aspas. Esse local, físico, dentro de uma mansão, serve para guardar seus livros e objetos mágicos – e só fica inviolável mediante frases que ele recita.

Absurdo, não? Mas não é assim que nós vivemos também, em nossos ‘santuários’? Crendo que eles jamais serão violados? Ou confiando numa fita de tecido, numa imagem, numa Bíblia aberta sobre a mesa ou num rito? Parte da nossa revolta não vem da tentativa de entender porque somos atingidos pelas circunstâncias da vida, já que obedecemos todos os preceitos e regras da nossa fé?

Se até Deus deixou claro que não habita mais em templos construídos por homens, por qual motivo insistimos em habitar e confiar nos nossos ‘santuários’?

O ponto é: não se acostume com a segurança que construiu para si, nem se torne escravo dela. Essa ‘paz’ pode ruir, a qualquer momento. Contudo, se e quando isso acontecer, busque o conforto dAquele que não mora entre as paredes que fabricamos – físicas ou mentais.

“Porque o Espírito que vocês receberam de Deus não torna vocês escravos e não faz com que tenham medo. Pelo contrário, o Espírito torna vocês filhos de Deus; e pelo poder do Espírito dizemos com fervor a Deus: “Pai, meu Pai!” (…) Nós somos seus filhos, e por isso receberemos as bênçãos que ele guarda para o seu povo, e também receberemos com Cristo aquilo que Deus tem guardado para ele. Porque, se tomamos parte nos sofrimentos de Cristo, também tomaremos parte na sua glória. O que sofremos durante a nossa vida não pode ser comparado, de modo nenhum, com a glória que nos será revelada no futuro.” (Romanos 8:15-18)

Retirado do site Deus no Gibi

2 comentários:

SIMARLI SOUZA disse...

Amei o texto. Maravilhoso. obrigado Senhor.

SIMARLI SOUZA disse...

Obrigado Senhor por esta palavra. Muito lindo.

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