A história de meu pai




Wilma Rejane

Recebi convite para ministrar o sermão especial dedicado aos pais no segundo domingo de Agosto na igreja batista em que congrego. Aceitei de pronto, embora sabendo que esse seria um desafio de ordem maior por dois principais motivos: meu pai é falecido e em vida havia sido muito ausente. Passei a semana procurando passagens Bíblicas e histórias sobre pais para ilustrar o sermão e depois de ter lido(inclusive) um pequeno livro da editora sextante, intitulado “Histórias para aquecer o coração dos pais”, confidenciei ao meu esposo Franklin:

  • Sabe aquele livro que você me deu de presente? Tem tantas histórias lindas entre pais e filhos, chorei ao lê-las e também por descobrir que não tenho histórias desse tipo para contar sobre meu pai.

Ele fez uma pausa e respondeu:

  • O fato de não ter histórias já é uma história. Você nunca comentou sobre isso em nenhum sermão, quem sabe essa é a oportunidade que Deus irá usar para falar com as pessoas sobre relacionamentos familiares.

E acatando o conselho de meu amado esposo abro “a caixa secreta”sobre eu e meu pai, uma história que sempre me faz chorar, especialmente por saber que poderia ter sido diferente se pelo menos um de nós, na época,  conhecesse o incomparável amor de Jesus.


Uma data

O dia dos pais é uma data originada nos Estados Unidos quando uma filha, chamada Sonora Louise , motivada pela amor que sentia pelo pai militar, recorre a Associação Ministerial de Spokane e Entidade de Jovens Cristãos em Washington para oficializar uma data em que todos pudessem comemorar e demonstrar gratidão aos pais. Em 1972, depois de muitas comemorações lideradas por Sonora, o presidente Richard Nixon, assina uma proclamação presidencial declarando o terceiro domingo de Junho “Dia dos pais”. Por motivos comerciais, o Brasil importou a comemoração, transferindo para segundo domingo de Agosto.

Muito antes de existir data comemorativa para os pais, existiu o plano Divino da família,  onde pais e filhos foram chamados para amar uns aos outros, sendo testemunhas de Deus na construção de uma sociedade melhor, de um mundo mais justo: “não é bom o homem estar só.” Gn 2:18, é no relacionamento familiar que o homem ganha identidade, recebe valores para a vida. Na ausência de uma família, o homem pode se achar só, contudo, seria irreal ignorar que dependeu de relacionamentos familiares para ser gerado. Somos um, em mistura de antepassados, resultado de genes entrelaçados. Também seria irreal ignorar que há famílias e famílias: lares habitados, calorosos e abençoados e casas divididas.

Deus escolheu uma família em Belém na Judeia para abrigar Seu filho Jesus no cumprimento do plano salvífico para humanidade. José e Maria, sublimes exemplos de pais que bem souberam conduzir a família alicerçados na Palavra de Deus. Tiveram problemas, mas permaneceram unidos na busca por soluções. Em uma carpintaria José passava a maior parte de seu tempo, ensinou o oficio aos filhos e da mesma forma que polia a madeira e cortava as arestas dos móveis encomendados, labutava juntamente com a esposa na educação familiar, uma tarefa sofrida que exigia paciência, cooperação e sobretudo fé. E se pensarmos que na época de José não existiam ferramentas como serras elétricas para derrubar árvores e facilitar o trabalho, poderemos dizer que toda a família era engajada na carpintaria. Posteriormente, vemos toda família também unida na missão de propagar o Evangelho do Reino de Deus. As mãos de todos naquela família deveriam ser calejadas, porém, amaciadas pelo amor com que serviam uns aos outros. Que exemplo de família!


Por muitas datas...

As mãos de meu pai estiveram sempre tão distantes que nunca senti a temperatura de sua pele ou a segurança de me sustentarem em algum percurso curto ou longo . Faz oito anos que ele se foi e é claro que guardo muitas lembranças, mas não insisto em trazê-las para o presente para não reviver o que tanto me fez sofrer. Meu amado pai já carregava uma historia familiar triste, seu pai (meu avó) havia abandonado a família “vou ali comprar um cigarro” e dessa ida, se passaram mais de trinta anos de ausência. Voltou para casa à beira da morte, pediu perdão a esposa e filhos e partiu definitivamente. A única vez que vi meu avô paterno foi poucos dias antes de sua morte.


Meu pai viajava muito, era representante comercial,  excelente vendedor, educado ,  belo e tão rigoroso com os filhos que apenas um olhar seu nos fazia “tremer na base “. Seus olhos eram de um azul claro e atraente e sua voz grave e sempre em tom autoritário. Não, eu nunca soube o que era um abraço seu, um carinho que seja. Ele nunca, nunca, lembrou de um aniversário meu, não visitou meus filhos quando nasceram e fazia questão de dizer que minha irmã mais velha era sua filha preferida. Quando meu pai chegava de viagem, minha irmã corria para receber o presente que ele sempre trazia para ela, enquanto eu me escondia atrás da porta para chorar de tristeza pela indiferença com que era tratada. Não entendia porque era esquecida, apesar de me esforçar para ser lembrada.

Minha pretensão ao contar esses fatos não é despertar sua piedade ou compaixão, mas dizer que após receber o perdão de Deus, renascendo em Cristo fui capacitada a perdoar e amar meu pai sem esperar nada em troca. Também me senti amada como filha, compreendi que tinha um Pai que jamais me abandonaria: Jesus Cristo que havia sofrido até a morte para me resgatar da perdição eterna. Isto me preencheu de tal forma que as mágoas e feridas causadas pelo relacionamento com meu pai, sumiram. Eu não tinha que me esforçar para ser vista ou querida, eu era vista e também querida, o amor de Cristo me curou.

Reiniciando o calendário

Conheci a Cristo  poucos meses antes da morte do meu pai. Em uma tarde, meu pai sentou à mesa para tomar chá com biscoitos,  sentei ao seu lado. Ele estava bem doente, algumas vezes ficava inquieto e agressivo, mas nessa tarde estava calmo.

-Pai, eu gostaria de ler alguns versículos Bíblicos para o Senhor pode ser?

-Ele me olhou  e com a mesma voz grave e autoritária de sempre disse: não precisa, conheço a Bíblia de capa a capa.

-Tudo bem, sei que o Senhor já leu algumas coisas, mas vou insistir, tá? Ele sorriu sutilmente.

-Pai, eu preciso lhe dizer algo, quero que saiba que eu o amo.
    Levantei da cadeira e o abracei. Passei as mãos em seus cabelos e continuei. Eu estava meio sem jeito, pois nunca havíamos conversado daquele forma.

    -Também quero que saiba que eu o perdoo por tudo, e me perdoe se não fui a filha que o senhor esperava.

    Pela primeira vez na vida, vi lágrimas escorrerem na face de meu pai. Ele permaneceu em silêncio, sentado e balançou a cabeça como se estivesse concordando. Não retribuiu meu abraço, mas eu soube que ele ficaria em paz e eu também.

No dia seguinte eu viajaria de volta para casa, no litoral do Piauí e meu pai ficaria em Teresina, onde morava. Pouco mais de dois meses, após essa nossa conversa, recebi o telefonema de minha mãe sobre o falecimento de meu pai. Não há indícios de que tenha recebido Jesus no coração, mas não posso afirmar sobre o que aconteceu entre ele e Deus em seus últimos dias de vida, ninguém pode.

O paralelo

Não, esse não é o sermão que irei pregar na Igreja, falarei sobre Abraão e Jairo, pais que oraram por suas famílias e receberam de Deus a recompensa. Contudo, desse sermão paralelo, declarado aqui no blog, deixo o registro de que Cristo salva o homem por inteiro, não apenas para uma vida pós-morte, para eternidade, mas de todos os aspectos existentes nesse século. Cristo se interessa por nossas famílias e quer que perdoemos situações para podermos, de fato, conhecermos a paz proporcionada por este ato. Cristo nos capacita (esta é a palavra) a perdoarmos.

Outra lição que aprendi é a de que tantas vezes cobramos amor, atenção, acusamos, julgamos ser o outro a causa da nossa infelicidade, quando na verdade nós é que precisamos mudar. Se Jesus vive em nós, seremos felizes independente do que pensem sobre nós. Também saberemos que amor não é uma troca de favores, mas uma virtude da graça Divina e como tal : o amor é, somente, semente que se planta em terra seca para Deus regar. Perdão também é dádiva que se concede quando se conhece o valor da liberdade conquistada na cruz do calvário.

Sei que existem muitos pais que amam a família e se esforçam diariamente para nada lhes faltar. Existem pais como José - citado no inicio do texto - que alicerçam a família na Palavra de Deus, na fé e esperança de receber as promessas de salvação. Existem pais ausentes e presentes. Porém, não há Pai que se equipare a Deus, não há amor igual: “Deus faz com que o solitário viva em família, liberta aqueles que estão presos em grilhões” Sl 68:6. Conhecer esse Pai faz toda diferença em minha vida.

Deus o abençoe.

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