Wilma Rejane
“Davi, como nos outros dias, dedilhava a harpa; Saul, porém, trazia na mão uma lança.” (1 Samuel 19:9)
A harpa e a lança! Dois objetos que, ao serem introduzidos na história dos reis Davi e Saul, revelam muito mais do que simples instrumentos utilizados em suas atividades cotidianas. São elementos que nos permitem estabelecer uma analogia entre duas naturezas distintas, duas maneiras de reagir à vida e, sobretudo, duas condições espirituais.
Uma observação isolada desses objetos já nos remete a muitos significados. Dificilmente deixaríamos de associar a harpa à música, à harmonia e à adoração; enquanto a lança nos lembra guerra, confronto e violência.
A harpa produz melodias, a lança fere. Uma precisa de cordas afinadas para produzir sons agradáveis; a outra depende da força de quem a arremessa para alcançar seu alvo.
É interessante observar como esses dois objetos aparecem repetidamente no cotidiano de Saul e Davi.
“O espírito maligno, da parte do Senhor, se apossou de Saul, estando ele assentado em sua casa e tendo na mão a sua lança, enquanto Davi dedilhava o instrumento musical.” (1 Samuel 19:9)
“Ouviu Saul que Davi e os homens que o acompanhavam haviam sido descobertos. Achava-se Saul em Gibeá, debaixo de um arvoredo, numa colina, tendo na mão a sua lança, e todos os seus servos com ele.” (1 Samuel 22:6)
A lança acompanhava Saul, enquanto a harpa fazia parte da vida de Davi.
Se considerarmos que Saul, movido pelo ódio, pelo ciúme e pela inveja, perseguia Davi, a presença desses objetos ganha novos significados.
Saul parecia carregar consigo a disposição permanente para o confronto. Sua lança tornou-se uma imagem de seu coração perturbado, sempre pronto a reagir violentamente diante daquilo que contrariava suas vontades.
Davi, por sua vez, também conhecia a guerra. Não era um homem incapaz de lutar, tampouco alguém desprovido de coragem. Havia enfrentado Golias e participado de muitas batalhas. Entretanto, sua relação com Deus não estava fundamentada na violência, mas na confiança e na dependência do Senhor.
A harpa nos permite contemplar essa outra dimensão de sua personalidade: o adorador que encontrava na presença de Deus o lugar de fortalecimento de sua alma.
Davi era chamado homem segundo o coração de Deus (1 Samuel 13:14; Atos 13:22). Isso não significa que fosse perfeito, mas que sua vida era marcada por uma disposição de buscar a Deus, arrepender-se e submeter-se à Sua vontade.
Saul representa o homem que permite que suas paixões governem suas atitudes. Davi nos aponta para aquele que, mesmo enfrentando conflitos, aprende a colocar sua vontade debaixo da direção divina.
Não é fácil dedilhar uma harpa quando alguém nos ameaça com uma lança.
É muito mais natural reagir à agressividade com agressividade, responder à ofensa com outra ofensa e desejar vingança quando somos injustiçados.
Entretanto, é justamente nessa analogia entre o instrumento musical e a arma de guerra que encontramos uma das mais belas lições da vida cristã: a verdadeira força não está em dominar o outro, mas em permitir que Deus governe nossas próprias reações.
O homem guiado por seus instintos tende a responder conforme aquilo que sente. Se é ofendido, revida; se é contrariado, enfurece-se; se é ameaçado, deseja destruir a ameaça. Seus sentimentos tornam-se senhores de suas decisões.
O homem guiado pelo Espírito Santo também sente indignação, tristeza e dor, mas não permite que essas emoções determinem seu comportamento. Ele aprende a discernir, a esperar, a perdoar e a agir segundo os princípios da Palavra de Deus.
Paulo explica essa oposição em Gálatas 5:16-23. De um lado, apresenta as obras da carne, entre elas inimizades, porfias, ciúmes, iras e contendas. De outro, apresenta o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.
Observemos que o domínio próprio aparece como fruto do Espírito. Não se trata simplesmente de uma habilidade adquirida pela força de vontade, mas de uma transformação que acontece na vida daquele que se deixa conduzir por Deus.
O cristianismo apresenta um caminho que contraria a exaltação dos impulsos humanos. Durante o Iluminismo, no século XVIII, diferentes pensadores questionaram a religião e a autoridade da fé. Posteriormente, Nietzsche desenvolveu críticas profundas à moral cristã, especialmente à valorização da humildade, do perdão e da renúncia.
Seu pensamento sobre o além-do-homem, ou super-homem, propunha uma superação dos valores tradicionais e uma afirmação da vontade humana.
Podemos perceber como determinadas ideias continuam presentes em nossa sociedade: a valorização da força individual acima de tudo, a necessidade de vencer qualquer disputa e a interpretação do perdão como sinal de fraqueza.
São pensamentos que encontram muitos representantes entre os atuais portadores de lança.
Mas Jesus nos apresenta outra maneira de viver. Ele não nos ensina a cultivar a fraqueza, mas a compreender que a verdadeira grandeza não depende da violência, da vingança ou da imposição da própria vontade.
Dedilhando harpa
“Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.” (Zacarias 4:6)
Esse versículo foi dirigido a Zorobabel, governador de Judá, no contexto da reconstrução do templo de Jerusalém, após o retorno do exílio babilônico.
A obra enfrentava dificuldades e oposição. Entretanto, Deus assegurava que sua realização não dependeria essencialmente dos recursos humanos, da força militar ou da capacidade física dos trabalhadores, mas da ação do Seu Espírito.
Deus declara que Sua obra não seria realizada pela supremacia dessas forças. O fundamento seria o Seu Espírito. A Bíblia não despreza a força. Pelo contrário, apresenta Deus como a fonte de toda força verdadeira.
A questão não é possuir ou não possuir força, mas compreender de onde ela procede, a serviço de quem está e sob qual direção é utilizada.
O homem cristão não é passivo, acomodado ou incapaz de agir. Ele trabalha, luta, enfrenta dificuldades e toma decisões. A diferença está na origem de sua direção.
Enquanto o homem dominado pelos próprios instintos procura impor sua vontade, aquele que é conduzido pelo Espírito Santo aprende a submeter sua vontade à vontade de Deus.
Eis a diferença entre os que portam harpas e os que vivem com lanças nas mãos!
Jesus é a expressão perfeita dessa força que não precisa da violência para se manifestar.
No mundo tereis aflições, disse Ele, mas acrescentou: “Tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (João 16:33)
Como Jesus venceu?
Não pela imposição de Sua força física, não pela vingança contra Seus perseguidores, não pela violência como resposta às agressões. Sua vitória foi uma expressão de obediência perfeita ao Pai.
Quando Pedro, tentando defendê-Lo, lançou mão da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, Jesus o repreendeu:
“Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão.” (Mateus 26:52)
Jesus poderia ter escolhido o caminho do confronto, mas Sua missão não seria cumprida pela violência humana.
Na cruz, quando poderia ter respondido às ofensas, entregou-Se voluntariamente. Quando poderia ter invocado o juízo contra Seus perseguidores, orou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34).
Que melodia extraordinária!
Enquanto os homens manifestavam ódio, Jesus manifestava amor. Enquanto recebia ofensas, oferecia perdão. Enquanto Seus perseguidores desejavam Sua morte, Ele entregava a própria vida pela salvação dos homens.
A lança representa a reação da natureza humana dominada pelo pecado; a harpa nos remete à vida que encontra em Deus sua verdadeira harmonia.
Jesus não foi vencido pelos homens. Sua aparente derrota na cruz tornou-se o caminho da maior vitória da história: a ressurreição e a redenção da humanidade.
Sabemos que não é fácil controlar os instintos, vencer o orgulho, silenciar a vingança e desenvolver um espírito manso. Essa transformação não acontece apenas por determinação humana. Precisamos da graça e da ação do Espírito Santo.
É justamente quando reconhecemos nossa incapacidade e nos entregamos Àquele que venceu o mundo que descobrimos uma força diferente: a força que procede de Deus.
Paulo compreendeu essa verdade quando ouviu do Senhor:
“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” (2 Coríntios 12:9).
E acrescentou: “Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte.” (2 Coríntios 12:10).
A força dos fracos não consiste em aceitar passivamente o mal, mas em não permitir que o mal determine quem somos.
É aprender que vencer nem sempre significa prevalecer sobre alguém. Às vezes, vencer é renunciar ao direito de revidar, oferecer a outra face (Mateus 5:39), orar pelos que nos perseguem (Mateus 5:44), caminhar a segunda milha (Mateus 5:41).
É entregar a Deus aquilo que não conseguimos resolver e continuar praticando o bem, mesmo quando não recebemos o mesmo tratamento.
A harpa exige afinação. Uma corda desafinada compromete a harmonia de toda a música. Assim também acontece conosco: precisamos permitir que Deus ajuste nossos sentimentos, pensamentos e atitudes, para que nossa vida não produza os ruídos da ira, da inveja, do orgulho e da vingança.
Saul carregava uma lança, mas não encontrou nela segurança. Davi dedilhava uma harpa e encontrava em Deus sua fortaleza.
Que possamos escolher diariamente qual instrumento conduzirá nossa caminhada.
Que nossas mãos estejam ocupadas em produzir melodias de amor, perdão e esperança, mesmo quando o mundo insistir em nos oferecer motivos para a guerra.
Porque Jesus é a mais bela e intensa melodia para a alma!
Em Cristo, nossa Fortaleza.
* Autoria Wilma Rejane, inspirado em leitura da Bíblia, revisão ortográfica por IA.
* Imagem cortesia Pixabay

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