A história de um jovem chamado Êutico que caí de uma janela do terceiro andar, enquanto apóstolo Paulo pregava, está descrita no livro de Atos, capítulo 20, versos 7 à 12. O culto acontecia na cidade de Trôade, atual Turquia, em aproximadamente 50d.C.
O nome do jovem não foi omitido, Lucas, relator e testemunha ocular do acontecido, fez questão de registrar, o que não deixa de ser uma ironia já que Êutico significa "Afortunado" ou "De boa sorte". O rapaz despencou do terceiro andar e sobreviveu. O nome era extremamente comum entre a classe trabalhadora e escravos na Grécia e em Roma.
O culto aconteceu no domingo à noite ou no sábado à noite, dependendo de como calculavam o dia. Se Êutico era um trabalhador ou escravo, ele tinha enfrentado uma jornada exaustiva de trabalho o dia inteiro antes de ir para a reunião.
Lucas faz questão de mencionar que havia muitas lâmpadas no local. As lâmpadas eram alimentadas por óleo de oliva, o que significa que o ambiente estava superaquecido, enfumaçado e com baixo nível de oxigênio.
Consideremos a hipótese de o sono de Êutico ser uma reação física natural a um corpo exausto em um ambiente abafado. Há uma forte dose de humanidade e empatia nessa descrição.
A escolha pela janela pode ter sido uma tentativa de se manter desperto observando o movimento da cidade ou respirando um ar mais puro.
O oposto também pode ser verdadeiro: Êutico escolheu a janela porquê queria encostar e repousar. Fato é que a janela se tornou um ponto crítico, de perigo e morte.
A janela pode representar o limite entre o lado de dentro (a comunhão, o ensino, a luz) e o lado de fora (a escuridão da cidade, o mundo). Êutico não estava totalmente fora, mas também não estava totalmente engajado no centro da sala.
Quem se posiciona "na janela" corre o risco de cair para fora ao menor sinal de fraqueza. Na teologia bíblica de Lucas, o sono físico muitas vezes serve de alerta para o sono espiritual (o relaxamento da vigilância).
" Um jovem chamado Êutico, que estava sentado numa janela, adormecendo profundamente durante o prolongado discurso de Paulo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar e foi levantado morto." Atos, Capítulo 20, versículo 9.
Paulo desceu ao encontro do jovem, deitou-se sobre ele abraçando-o e dizendo "Não vos perturbeis, a sua alma nele está", Paulo repete exatamente os gestos do profeta Elias (1 Reis 17) e de Eliseu (2 Reis 4) ao ressuscitarem filhos de viúvas.
Para a igreja primitiva, esse milagre foi a prova cabal de que o ministério de Paulo tinha a mesma autoridade e o mesmo poder dos maiores profetas do Antigo Testamento. Isso era crucial porque Paulo estava se despedindo daquela comunidade e eles precisavam confiar na solidez da doutrina que ele estava deixando.
O que acontece depois do milagre da ressurreição de Eutico.
Paulo não encerra o culto e manda todo mundo para casa assustado. O texto diz que ele sobe novamente, parte o pão, come e continua conversando até o amanhecer.
A palavra grega usada no final do texto para dizer que eles ficaram "consolados" (parakaleo) carrega um sentido de fortalecimento profundo. O milagre e a mesa compartilhada transformaram o que seria uma tragédia e um trauma comunitário em uma madrugada de celebração e fortalecimento da fé.
A história de Eutico, no fim das contas, é um estudo sobre os limites da fraqueza humana superados pela superabundância da graça divina.








