
João Cruzué
Há algo perturbador na visão que se abre no capítulo 9 de Amós: o Senhor não está no altar para receber ofertas, mas para destruí-lo. Golpeia os capitéis, faz tremer os umbrais, despedaça tudo sobre a cabeça dos presentes.
É o colapso das instituições sagradas, o desmoronamento de tudo aquilo que parecia sólido como pedra.
Para quem vivia naquela época, o templo era mais que um edifício religioso. Era o símbolo da presença divina, a garantia de proteção, o centro da identidade nacional.
Ver Deus destruindo seu próprio santuário era como assistir um pai incendiando a casa da família. Não faz sentido. Não deveria acontecer. Mas acontece.
Talvez seja esse o ponto mais incômodo da profecia de Amós: Deus não está preso às nossas instituições religiosas.
Ele não é refém de nossas tradições, por mais antigas e veneráveis que sejam. Quando essas estruturas se tornam cúmplices da injustiça, quando servem para encobrir a opressão ao invés de combatê-la, elas mesmas se tornam alvos do juízo divino.







