domingo, 10 de março de 2013

O mordomo mor e a Rainha de Candace na estrada deserta de Gaza.

Entendes tu o que lês? Atos 8:30



Wilma Rejane


E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta. E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração, regressava e assentado em seu carro lia o livro do profeta Isaías Atos 8:26-27.

A história do eunuco mor e da rainha de Candance é maravilhosa . Eles eram gentios, estavam em Jerusalém para adorar o Deus dos judeus e voltavam para casa por um caminho em Gaza, uma estrada deserta e pouco trafegada. Existem algumas perguntas que poderíamos fazer considerando todo o contexto: Por que esses influentes etíopes retornavam a Africa por um caminho deserto? Porque vieram de tão distante para reverenciar O Deus de Israel? Quem era essa rainha e esse mordomo-mor?

Alguns historiadores tiveram a preocupação de recolher dados significativos sobre esses dois personagens. Candace era uma denominação dada para as rainhas mães no reino de Kush, ou Cão. Um clássico escritor romano (Calistenes) deixou registrada sua admiração pelas Candaces. Segundo ele, elas eram mulheres fortes e de uma sabedoria ímpar. Ele cita o diálogo de uma Candace com Alexandre o Grande que teria sido proibido de entrar na Etiópia sob a advertência:" Não menospreze nosso povo, nossa cor, porque nossas almas são tão brancas e brilhantes quanto o branco que há em você".

Dizem que após conhecer (de longe) a defesa formidável e o treinamento dos soldados de Candace, Alexandre teria desistido de enfrentar esse povo, perder a guerra para uma general mulher, seria vergonhoso. Estrabão, em seu relatório sobre o confronto militar entre romanos e etíopes, descreve uma Candace como a maior estrategista militar que já havia visto.



 "Não menospreze nosso povo, nossa cor, porque nossas almas são tão brancas e brilhantes quanto o branco que há em você" Rainha Candace


Sobre o mordomo-mor, ele era um oficial da corte, negro e castrado (eunuco). Um etíope interessado e estudioso das escritura que parecia ter voltado de Jerusalém, incomodado com a passagem do livro de Isaías sobre o Cordeiro mudo levado ao matadouro (Isaías 53:7-8). As leituras nas sinagogas e templo, nessa época, eram feitas em voz alta, e os pergaminhos do profeta Isaías que anunciam a vinda do Messias, deve ter sido centro de alguma pregação ouvida pelo eunuco que foi pelo caminho repetindo a passagem de Isaías e lendo-a vez por outra em seu pergaminho.

A rainha da Etiópia e seu mordomo, tiveram que viajar cerca de 200 quilômetros para chegar até Jerusalém, a presença de judeus etíopes na cidade era comum, pois haviam adquirido certa influência, a Etiópia havia se tornado o primeiro centro de culto monoteísta do continente africano e tão fantástico foi o encontro do eunuco com o Evangelista Felipe, que escritores antigos como Jerônimo, contam ter sido o mordomo-mor de Candace um dedicado discípulo de Jesus, tendo apregoado o Evangelho na Arábia Felia e nas proximidades do Mar Vermelho chamada Caprobano (alguns chamam celião), onde supõe-se ter sofrido martírio pelo testemunho. O cristianismo foi reavivado como religião oficial na Etiópia no século IV, de 1644 a 1974 com a queda do imperador Haile Sellasie em 1974.



Felipe e o Eunuco da Etiópia


E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta. Atos 8:26.

É interessante que após a conversão do mordomo-mor na deserta estrada de Gaza, temos o relato da conversão de Paulo, na estrada de Damasco (Atos 9). É Deus nos falando que para Ele, não existe lugar nenhum inacessível e oculto aos Seus olhos. Ele resgata vidas em todo e qualquer lugar da terra e utiliza as mais variadas formas de falar conosco. Vejam, o eunuco mor voltava do templo e Paulo era um fariseu que vivia no templo, ainda assim, os dois precisaram se voltar com todo o coração para a Palavra de Deus, compreendendo a necessidade de arrependimento e conversão.

Paulo perseguia cristãos, o mordomo, era perseguido por sua condição de eunuco, este não podia entrar livremente no templo por ser considerado defeituoso. Só podia adorar do lado de fora. Não se sabe ao certo de que forma aconteceu a visita da rainha e do mordomo em Jerusalém, mas a estrada solitária, parecia refletir de fato, o estado de espírito em que se encontravam. Apesar da posição de destaque, os judeus muito rigorosos e zelosos com a lei,devem ter proporcionado certo distanciamento entre a rainha de Candace, seu mordomo e a elite religiosa de Jerusalém. Mas se os homens se mostram distantes de nós, por algum motivo preconceituoso, Deus não faz acepção de pessoas. O pecado e a rebeldia em ouvir Deus, são fatores que nos afastam Dele e não nossa condição física, social ou mesmo de nacionalidade.


Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir.Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça. Isaías 59:1-2

Deus nos encontra nos lugares desertos, nas estradas de Damasco. Na estrada, a caminho de Gaza, o mordomo lia Isaías em sua carruagem, nem rainha, nem condutor, ninguém era capaz de acalmar seu espírito e resolver o conflito existencial que instigava seu ser sobre a salvação. Ele lia e relia os versos de Isaías e sabia que ali havia algo mais, uma revelação. E Deus providenciou Felipe para ajudar o eunuco. Podemos estar rodeados de pessoas, mas ainda assim não estarmos felizes. Podemos mesmo, ter uma profissão de destaque, influência na sociedade e ainda assim, viver como em uma estrada deserta e ninguém, será capaz de resgatar nossa alma da solidão.


Só mesmo Deus, ele enviou Felipe a Gaza porque ouviu a oração, a angústia e o anseio do mordomo por conhecer o Messias. Deus também viu o esforço do mordomo e da Rainha ao se deslocarem de uma distância tão grande para irem ao templo. Digamos que o templo representa uma religião, mas ela não nos salva. Ela pode revelar que há um vazio em nós, uma necessidade de encontrar o Deus que preencha esse vazio, mas assim como o mordomo e a raínha voltavam para casa, por caminho deserto, a religião também faz com que pessoas continuem desertas em si mesmas e também no olhar sobre o mundo e o outro.

Em Atos dos apóstolos, lê-se um verso, quando da conversão de Paulo, que nos é animador. E disse o Senhor a Ananias: “ Levanta-te e vai a Rua chamada direita, e pergunta em casa de Judas por um Homem de Tarso, chamado paulo, pois ele está lá orando” Atos 9: 11.

Deus sabe onde estamos e quais são nossas angustias, mas é preciso que oremos a Ele, assim eis que o socorro virá. E esse socorro não é por um dia apenas, mas para uma vida, como foi com o mordomo-mor  e com Paulo, porque eles procuravam Jesus e não uma religião. Não sei qual era a reação dos judeus em relação aos etíopes, mas ainda hoje é comum a versão de que os descendentes de Cuxe foram amaldiçoados e por isso, teriam nascido com a pele escura. Essa é uma visão racista e contrária ao pensamento cristão. O mordomo-mor e a Rainha de Candace podem ter sido vitimas de preconceitos por parte dos judeus que chamavam samaritanos de impuros por serem idolatras e cananeus de cachorrinhos pelo mesmo motivo. Deus, contudo os acolheu com amor eterno, não deixou com que partissem vazios de Jerusalém. O historiador Fouard conta que a rainha de Candace também teria se convertido pelo testemunho do seu mordomo-mor.

Eis que Deus está aguardando nos ouvir, pelo que nos aflige. Eis que Ele virá em socorro, pela fé em Cristo Jesus,  em qualquer lugar que estejamos, nunca será tarde para buscarmos um encontro como o que aconteceu na estrada deserta a caminho da Gaza. E você diz: "Mas tenho orado tanto, tenho aguardado e nada". Não perca o ânimo, Abraão esperou  25 anos até ver seu sonho realizado, José viu tudo em sua vida desmoronar, até chegar o tempo da promessa. O mordomo-mor, Paulo e outros tantos cristãos, deixaram seus testemunhos para que pudéssemos nos exemplar e não perder a fé nas estradas desertas da vida, onde aguardamos o milagre.

E sobre o significado do nome mordomo-mor, há algo que vale a pena conhecer. Essa palavra, vem do grego "dunastes" (strong 1413) significando ministro real, alto funcionário da corte. Essa Palavra também é usada para descrever o reino de Cristo do Principe da paz como uma eterna mordomia.Assim, como cristãos, somos servos e tão dedicados a nosso senhor como o mordomo-mor deveria ser a sua Rainha.

Fontes: Bíblia de Estudo Plenitude, Revista e corrigida, 1995, SBB
             Rainha de Candace na Antiguidade - William Cook
             Kandake e Bible Encyclopedia
             Mulheres Negras na Antiguidade de Ivan Van Sertima, 1990

Artigo relacionado: Simão, o Cirineu. A cruz e a veste branca.

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...