A utópia dos falsos messias


Cenas do filme: Guerra de Canudos


Os movimentos messiânicos trazem em si uma visão de utopia social que os aproxima do pensamento revolucionário.Que há em comum entre os libertários europeus do início do século XX e o beato cearense Antônio Conselheiro (1830-1897), que liderou o Movimento de Canudos na segunda metade do século XIX no sertão baiano? Existe na trajetória de ambos, uma visão messiânica que acompanha o pensamento e a atuação social.

O messiânico é uma doutrina encontrada em algumas religiões da Pérsia antiga e foi incorporada pelos judeus durante a dominação persa nos séculos VI a IV a.C. Os judeus construíram sua concepção do Messias como aquele que viria libertar o seu povo e criaria ou restauraria um governo de paz e de prosperidade. Seu reinado seria um tempo de justiça onde os pobres seriam abençoados e os ricos e perversos castigados.O cristianismo tem seu conceito de Messianismo, seguindo as Escrituras Sagradas: Antigo e Novo Testamento. Jesus, identificado como o Messias, vai retornar no final dos tempos e se transformar no guerreiro que combatera o Anticristo, personificação do mal, e instalará o milênio de paz no mundo.


A socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz define o Messias como “alguém que é enviado para trazer a vitória do Bem sobre o mal, ou para corrigir a imperfeição do mundo, permitindo o advento do Paraíso Terrestre; tratando-se de um líder religioso e social. O líder messiânico é carismático, tem atributos extraordinários e é também um profeta, portador de uma nova mensagem divina em oposição aos sacerdotes, o clero estabelecido oficialmente.”

O messianismo tomou formas políticas e, num processo de inter-relações mediadas pela utopia, um sentimento de esperança e transformação social, encontrado tanto na religião quanto na política, contribui para a formação do pensamento libertário europeu dos séculos XIX e XX (anarquismo, anarco-sindicalismo, marxismo) na sua visão de uma nova ordem social, um mundo novo igualitário tal qual preconizavam os profetas judaicos.Além das funções rituais, a religião  historicamente tem desempenhado o papel de catalisadora do protesto social. Nos movimentos messiânicos isso ocorre de forma clara, pois estão ligados a crises de estrutura e organizações sociais.

Os messianismos são considerados movimentos sócias por serem sempre coletivos, dinâmicos e buscarem a destruição de estruturas consideradas injustas e a construção de um novo mundo. Trata-se de um agrupamento formado por homens, mulheres, crianças, famílias organizadas cujo núcleo é um individuo com atributos sobrenaturais, um  líder carismático. Em geral o líder fundava uma cidade santa, onde os eleitos de Deus viviam de forma harmônica, seguindo preceitos éticos e normas internas que visavam o pleno funcionamento da comunidade governada por leis divinas.

A comunidade messiânica esperava a instalação de um reino celeste na terra, onde haveria plena felicidade, fartura e justiça para todos. O reino pode ser o Milênio de Cristo, mil anos de paz e felicidade, prometido nos textos bíblicos aos eleitos de Deus. O milenarismo é tipicamente cristão, porém não se confunde com messianismo pois é possível esperar um messias sem determinar a duração dessa espera e a de seu reino, e, como no judaísmo sem acreditar que ele já se manifestou.

Pelo fato de serem movimentos com caráter de contestação à ordem estabelecida os agrupamentos messiânicos foram destruídos pelos governos ou desqualificados pelas igrejas, desde os primeiros tempos da colonização. No período colonial (1500-1822) encontra-se registros de movimentos messiânicos entre os indígenas, que desenvolveram o mito da terra sem males ou das santidades. O jesuíta Fernão Cardim (1548-1625), missionário na Bahia, em seu livro tratados da terra e da gente do Brasil (1583-1590), registrou que entre os indígenas “se alevantaram algumas vezes alguns feiticeiros, a que chamam caraíba, santo ou santidade, e é de ordinário, algum índio de ruim vida: este faz algumas feitiçarias, e coisas estranhas à natureza: traz após si todo o sertão enganando-os dizendo-lhes que não rocem, nem plantem seus legumes e mantimentos, nem cavem, nem trabalhem, etc. porque com sua vinda é chegado o tempo em que as enxadas por si  hão de cavar  e às roças irão  trazer os mantimentos”.

Uma  “idade de ouro” que se juntou aos ensinamentos Bíblicos adquiridos na catequese e proporcionou o surgimento de movimentos considerados heréticos, a exemplo da “Santidade de Jaguaripe”, na Bahia, entre 1580 e 1585. Convém salientar que os jesuítas desqualificavam quaisquer manifestações religiosas e indígenas. Tal identificação com o messianismo é uma leitura contemporânea, partilhada por diversos historiadores da religião.

Em meados 1817, o sertão de Pernambuco foi palco do movimento A Cidade do Paraíso Terrestre, a chamada Revolta da Serra do Rodeador. Aglutinou muitos fiéis em torno do beato Silvestre José dos Santos (um ex-militar), os quais acreditavam na volta do rei D. Sebastião, que com seus exércitos transformariam os líderes em príncipes, os pobres em ricos e aumentaria a fortuna do lugar. Desde então, movimentos desse tipo eclodiram tanto no nordeste quando no sul do país, como a revolta dos Mucker, no Rio Grande do Sul, e o contestado, em Santa Catarina.

Em 1893 surgiu nos sertões da Bahia o arraial de Canudos, considerado o maior movimento messiânico brasileiro. O recém instalado regime republicano não poupou esforços no combate ao Arraial do Belo Monte, cidade santa criada pelo beato católico Antônio Vicente Mendes Maciel, o conselheiro. Uma quadra popular dá dimensão da esperança que o beato provocava nas populações mais carentes: “quem quiser remédio santo/ lenitivo para tudo/ procure conselheiro/ que esta La nos canudos”. O arraial chegou a ter cercas de 25 mil pessoas e foi considerada a segunda cidade da Bahia naquele momento. Longe de ser bárbara e arrepiadora, como disse Euclides da cunha, em Os Sertões (1902), a oratória do conselheiro se identificava profundamente com as aspirações das desassistidas populações do interior nordestino.




400 jagunços prisioneiros no arraial de Monte Belo. Crença no paraíso terrestre. Ameaça para a igreja e o Estado. Foto: Flávio Barros

O paraíso terrestre, milênio de paz se tornaria concreto na vida dos habitantes do arraial do Belo monte, que também esperavam a vinda de d. Sebastião para restaurar a ordem publica. Essa visão sagrada da monarquia, somada a um contingente expressivo de seguidores disposto a pegar em armas em defesa de sua cidade santa, era tida como uma ameaça pela jovem republica. Em 1895, o exercito iniciou uma guerra contra canudos, concluída após três campanhas, com a destruição do arraial e a morte de conselheiro em 1897.

Ainda no nordeste, de 1872 a 1934 se desenvolveu um movimento em Juazeiro no norte, no ceara, dirigido pelo padre Cícero Romão Batista (1844-1934), a quem eram atribuídos milagres e poderes extraordinários. Multidões acorriam a juazeiro em busca das bênçãos do “Padim” a hierarquia católica não reconheceu os milagres e puniu o sacerdote, mas permitiu-lhe continuar em juazeiro, temerosa com a reação dos romeiros. Padre Cícero fez alianças políticas duradoras, transformando-se também em líder político e constituindo-se com os seus romeiros na maior força eleitoral naquele momento.

Os romeiros identificavam o “Padim” com o Espírito Santo e com Deus, e Juazeiro com Jerusalém. Em seus sermões descrevia o juízo final identificava o vale do Cariri, onde Juazeiro esta situado, com o vale de Josafá, rei que governou Judá na antiguidade e ficou conhecido com rico, temente a Deus e que fez o povo judeu prosperar e voltar-se para os preceitos divinos. A fé dos romeiros era alimentada com os sermões e as promessas de paz, justiça e prosperidade. Após a morte do padre Cícero, os romeiros continuaram a frequentar a cidade santa para pedir milagres e bênçãos ao padrinho. Alguns esperam até hoje sua volta gloriosa para proteger os pobres e os enfermos.

Padre Cícero em seus sermões identificava o Cariri com a terra prometida, onde reinaria a paz, a justiça e a prosperidade.

O messianismo tanto no Brasil quanto no mundo tem se constituindo, por tanto, como um canal de expressão dos problemas sócias e políticos, uma alternativa para criar uma nova ordem social e sanar as injustiças. Uma sociedade como a brasileira, a religião se apresentou como núcleo central, alimentando as ações e dando sentido coletivo as transformações sociais, almejadas especialmente pelos seguimentos populares.

A verdade sobre o Messias é encontrada na Bíblia, nela está a Verdade para o que Foi, É e o que há de vir. Nela está escrito: “ E surgirão muitos falsos profetas e enganarão a muitos “Mt 24:11.
   
A história dos movimentos messiânicos no Brasil e no mundo,  está ligada a ondas de enganos e desgraças onde tanto pessoas simples quanto nobres são conduzidas em “lavagem cerebral” a um falso mundo de paz. Alguns acordam a tempo, outros sequer acordam , dormindo eternamente em perdição.  Somente através do conhecimento Bíblico e da fé no verdadeiro Messias, Jesus Cristo, é possível a libertação do engano, dos falsos profetas, e do pecado.


ELIZETE DA SILVA e professora de historia na universidade estadual de Feira de Santana (BA) e na UFBA É autora de (protestantismo e religiosidade popular). In: COUTINHO, Sergio Ricardo (org.). Religiosidades, misticismo e historia no Brasil central. Brasília: CEHILA.

Acréscimos feitos por Wilma Rejane.

4 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

oi wilma, tudo bem?

gostei muito deste texto, mas o final destoa completamente do que vem antes.

a análise social, religiosa, mística do messianismo foi feita de forma excelente, mas fechar um texto destes com a convocação para que se aceitem o "verdadeiro messias" destoa e destoa pelo fato de que todos os seguidores de um messias o tem como verdadeiro.(tirando aqueles que abriram os olhos)

é minha opinião.
beijos

Aliane disse...

ESSE BLOG É UMA BENÇÃO!
JÁ ESTOU TE SEGUINDO.
FICAREI FELIZ SE FIZER UMA VISITA NO MEU CANTINHO TMB.
OBRIGADA.

Wilma Rejane disse...

Oi Eduardo, tudo bem!

A verdade sempre destoa da mentira e vice-versa. Penso que o fato de os seguidores dos falsos messias o terem como verdadeiro, é apenas mais um forte motivo de falar sobre o que realmente seja verdadeiro.

Obrigada
Deus o abençoe Edu.

Wilma Rejane disse...

Oi Aliane!

Obrigada amiga,

Passo lá no seu blog, tá?

Deus a abençoe.

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